quinta-feira, 26 de abril de 2012

capítulo V


Sabe quando o mundo a sua volta para, e você fica ali num estado de êxtase, sem mexer nenhum músculo, sem poder dizer uma palavra, quando o mundo realmente para, então, naquele momento o meu mundo parou. Minha Irmã que eu odeio, casada com o homem que, que até então, eu estava apaixonada, criando meu filho, que eu pensava que existia mais.
Minha vida realmente vivou de pernas para o ar. Eu gritava, e como gritava. Queria partir pra cima dele, dar um belo de um tapa na fuça daquele cafajeste. Ele, quase que sem resposta, tentava me acalmar:
-Adélia, contenha-se. Não irá adiantar nada você fazer esse escândalo, olha os vizinhos!
E eu gritando:
- Não quero saber de nada, quero que esses vizinhos se explodam, todos de uma vez.
E ele tentava me acalmar:
-Pelo amor de Deus Adélia, se acalme.
Eu não estava nem ouvindo. Sai daquela casa com um ódio da vida, com ódio de todos. Pelo meio da rua fui indo em casa, não peguei táxi, nem ônibus, fui a pé. Pensando em todos aqueles problemas, aquela vida que só me dava angustia, que só me fazia sofrer e que estava acabando comigo. O amor que não podia existir, a constatação do soropositivo, um filho e aquela vida medíocre não tinham saída, aquela era a minha realidade e eu teria que enfrenta-lá forte, como uma montanha inabalável e inatingível.  A falta de ânimo me dava enjôo.  Achei que nunca mais voltaria a sorrir. A vida tinha perdido sua essência.
 No meio do caminho, tocou o celular. Era ele:
- Adélia, volta. Precisamos conversar. Tenho muito pra te contar, e muito pra ouvir.
Não disse nada. Só ouvi aquela voz calma e sincera, a mesma pela qual me apaixonei.
 Tomei uma coragem assustadora que me fez erguer a cabeça. Sim, eu estava muito infeliz. Mas a vida já tinha me ensinado a ser forte. Eu não precisava de ninguém, estava segura que agüentaria tudo, sozinha.  Ao dar meia volta na rua numa busca desesperada pelo acaso pensei em tudo, numa forma ampla; Pensei e repensei cada ato. Coloquei-me nos lugar dele, dela, desse meu filho, se posso chamá-lo assim. Percebi que a vida também tinha sido injusta com todos eles. Pensei em perdoá-lo, mas acho que ainda não era hora, não só por me passar HIV, mas por ter mentido, por ter me enganado. Com Thiago, sinceramente não sabia o que fazer, não estava apta a carregar um fardo tão grande como o de ter um filho. Minha irmã, mesmo depois de me fazer sofrer tanto, podia estar arrependida. Ela também sofreu muito nessa vida, nessa vida que... Ahh não vale à pena lembrar. Mas ela podia estar arrependida. Peguei um pouco de dinheiro para comprar cigarro. Mas ele já não sanava a minha dor, nem me fazia esquecer. Já não era mais o momento que eu esquecia tudo e todos. Ao acender o cigarro aquele nojo me veio à boca, ué cadê o meu vicio? Joguei fora o cigarro e todo o resto. Decidi voltar.
Enfim chegando a frente da casa da “família Sotelli”, sentei no mesmo lugar que havia sentado minutos antes. E aquela angustia misturada com a dor e a revolta estava me dando mais medo do que da primeira vez.
Ao olhar para o lado, num banco exatamente igual ao que estava sentada, a surpresa. Minha irmã. Ela estava linda, toda produzida, bem arrumada, e eu parecendo um boneco de vudú. Ela foi se aproximando devagar, até que chegou:
-Posso falar com você?
Eu bruta:
-Fala.
-Adélia, eu errei, e assumo esse erro. Mais quero te contar tudo, desde o começo. Posso?
Eu continuava irredutível:
-Fala.
E ela começou:
-Adélia, quando nós nos separamos, a minha vida também não estava fácil, estava carente precisando de alguém para desabafar, estava precisando de alguém para me ouvir, então conheci o Felipe. Aquele homem, com aquele sorriso me deu uma certa segurança, fiquei a vontade de conversar e contar de todos os meus problemas. Ele parecia meu porto, com ele sentia que não estava sozinha, ele era meu ponto de paz, e acho que com você foi igual, ele tem esse jeito todo conquistador de ser, e sabe as palavras que confortam. Mas continuando, eu estava carente e encontrei Felipe, com quem comecei a namorar. Queria ficar com ele, só ele já tinha um filho, mas não era filho dele, exatamente. Era o irmão. O pai dele tinha se relacionado com uma mulher e ela engravidou dele, no entanto, como ela não queria o filho e era muito nova, abandonou-o. Com a morte do pai dos dois, Felipe se viu obrigado a cuidar do irmão, e como Thiago ainda era muito pequeno, ele abandonou o sobrenome do pai e ficou apenas com o da mãe, Sotelli, a partir de então, ele é o pai de Thiago.
Desabei. Comecei chorar compulsivamente, queria uma resposta do Felipe, mas a mais errada da historia era eu. Não tinha ligado os pontos, mas agora tudo fazia sentido. Tanto tempo se passou, rezei tanto para esquecer aquele pesadelo, mas ele voltou á tona. E ela continuou:
- Sabendo que ele era filho seu, não queria nem saber do Felipe. Mais ele era apaixonado por mim, dizia que faria qualquer coisa para ficar comigo. Ele ficava no meu pé, sempre estava perto de mim, mandava flores, cartões, mas eu nem pensava nele e muito menos em você, ainda mais depois daquela briga. Mas Paula me fez a cabeça. Falou que, já que ele me queria tanto e estava disposto a tudo seria uma ótima vingança ele passar o vírus para você, mas eu nem queria me vingar. De cabeça quente, desesperada, aceitei essa idéia maluca. Como gostava do Felipe após ele ter te passado o HIV, fiquei com ele. E pra diminuir a minha culpa aceitei cuidar do Thiago. Arrependo-me todos os dias por ter aceitado que Paula me fizesse minha cabeça e por ter feito essa proposta a Felipe.
Não falei nada, sai dali com a cabeça a mil, cabisbaixa. Não sabia aonde ir, não sabia para quem pedia ajuda. Bateu uma saudade daquela velinha do banco. Ela me entendeu num olhar. Queria que o resto do mundo fosse assim. Ou não, queria só que a próxima pessoa a minha frente fosse assim e me entendesse.  Mas vou ser realista, não existe perfeição, e se existisse não haveria o mérito.
Minha vida tinha passado de ruim para péssima, ou mais do que isso.
Então, voltei para casa. Um temporal me fez refletir ainda mais. A chuva se misturava com as lágrimas. Chorava descontroladamente. Andava na rua como um zumbi, podre por dentro. Tinha vestido minha armadura, mas ela não era forte o suficiente, eu quebrei por dentro. Aquilo tudo não saia do meu pensamento. Ao olhar no final da rua, um ônibus. Minha vida já tinha acabado já não valia mais a pena, aquele sofrimento teria que acabar, de um jeito ou do outro, então ... 


***escrito por André Guilherme***

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